Denise Tremura

Escritora e influencer digital


Causas e consequências

Por: Denise Tremura
15/11/2019 às 13:03
Denise Tremura

Fatos históricos são estudados a partir de dois elementos principais: causas e consequências. Para entender uma passagem histórica é  fundamental compreender quais suas causas e suas consequências. O leilão do Pré-sal foi um fato histórico no Brasil contemporâneo. Descoberto em 2006, suas reservas poderiam representar nossa autonomia em petróleo, um sonho antes inimaginável. Em um Brasil polarizado em suas posições políticas, a Esquerda sempre se mostrou totalmente contra a venda da reserva natural, partindo do princípio que patrimônio não se entrega. Não raro vimos parlamentares de partidos socialistas chamando o governo pós-Impeachment de entreguista. A saber: as reservas do Pré-sal foram avaliadas em 1,3 trilhão e foram colocadas à venda por 100 bilhões, menos de 10% do seu valor de mercado.

O tão polêmico e aguardado leilão do Pré-sal foi um total fracasso. Aberto a investidores do petróleo no mundo todo, no final das contas duas das quatro reservas foram arrematadas pela própria Petrobrás (com pequena participação da China) e outras duas não tiveram interessados. Duas empresas concorrentes abandonaram o leilão antes que ele começasse. Ironicamente, a pequena parte do nosso petróleo que não será explorada pelo Brasil foi parar nas mãos do Partido Comunista Chinês.

Parte do desinteresse se deve à falta de previsão confiável sobre o futuro  do petróleo no mundo. Cada vez mais empresas de tecnologia buscam formas de por fim à nossa dependência do ouro negro. Teorias da conspiração atestam que governos do mundo todo não incentivam a produção de carros elétricos porque a indústria petroleira é mais lucrativa, mas que a tecnologia para tal estaria pronta há tempos. Especulações à parte, ainda somos dependentes desse combustível fóssil que mudou completamente os rumos da humanidade.

Há outra razão também para o desinteresse dos estrangeiros nas nossas reservas do Pré-sal, que estavam praticamente de graça: a falta de confiança dos gringos no governo Bolsonaro e sua fracassada política externa. Nosso presidente é imaturo e arranja tretas desnecessárias para manter inflada de ódio sua base extremista e desviar o foco das suas falcatruas e da sua família no governo. Pense bem: se você tivesse bilhões de dólares pra investir, traria seu dinheiro a um país governado por um homem de sanidade duvidosa que flerta com o autoritarismo, amigo de milicianos, pego com 39Kg de cocaína em sua comitiva e que ainda tem seu nome envolvido no assassinato de uma mulher, líder da oposição? Pois é, os investidores estrangeiros também não.

A política externa está um horror. O Presidente do Brasil age com imaturidade e fez ofensas desnecessárias à esposa do presidente da França, o que despertou o asco dos demais líderes da União Europeia. Desprezou o mercado europeu contando com o apoio de Trump e os Estados Unidos, mas esse apoio não veio. O embargo norte-americano à carne brasileira permanece e o próprio Trump ligou para cumprimentar o presidente eleito da Argentina, Fernandez, que Bolsonaro vem atacando desnecessariamente, sendo que nossos hermanos argentinos são o terceiro mercado consumidor do Brasil. Nem mesmo entre os líderes de Direita o nosso governante vem encontrando apoio: O presidente do Chile repudiou suas declarações sobre a Ditadura naquele país e o candidato à presidência do Uruguai pela Direita dispensou o apoio do Bolsonaro, por medo da reação negativa que poderia causar entre seus eleitores.

O Deus Mercado já desembarcou do fascismo faz tempo, nas figuras de Luciano Huck e João Dória, dois possíveis candidatos e concorrentes diretos dos votos do Bolsonaro. Não porque Mercado seja bonzinho e discorde das ditaduras e das mortes e injustiças que vêm com elas, mas porque fascismo não é lucrativo. Investidores estrangeiros não compram de países com democracia em risco, bem como não fazem investimentos em países cujo governo não inspira confiança. Cada dia diminui o número de pessoas iludidas de que Bolsonaro faria uma boa administração pública. A cada trapalhada do presidente fanfarrão o bolsonarismo perde força e novas frentes liberais vão surgindo.

É incerto o futuro do governo Bolsonaro. Ou ele muda esse estilo de governar (em que ele pouco trabalha e muito arranja confusão) ou o próprio Deus Mercado, que o elegeu, vai correr com ele do Planalto. Afinal, hoje, do ponto de vista dos investidores estrangeiros, o Brasil é um povo pobre que colocou um louco autoritário no poder e que não inspira a menor confiança e estabilidade para um investimento seguro. Igualzinho à Venezuela.

Analisando tudo o que vem acontecendo no Brasil, as declarações de Bolsonaro e as reações dos gringos a ele, podemos dizer que já temos uma noção das causas do fiasco no leilão do Pré-sal e da política externa brasileira atual. As consequências, para o Brasil e para o governo Bolsonaro, no entanto, só o tempo dirá. 






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