Breno Aragon

Tecnólogo em informática, presidente do PSOL em Rio Preto e ex-integrante do Vergonha Rio Preto


Bolsonaro se calou sobre Ághata, mas teve pressa para homenagear uma pessoa que espancou a amante até quase matá-la

Por: Breno Aragon
04/10/2019 às 16:27
Breno Aragon

Bolsonaro não demorou 24 horas para homenagear MC Reaça, jovem que se suicidou após espancar sua amante ao ponto de achar que ela tinha morrido. Sobre  a jovem Ághata,  morta aos 8 anos de idade por um tiro policial, o presidente sequer manifestou condolências à família. 

O Brasil ficou estarrecido com a morte brutal da jovem Ághata de apenas oito anos no último dia 21 de setembro, baleada pelas costas em uma Kombi, enquanto voltava para casa no complexo do Alemão com sua mãe.  Segundo relato de familiares, um policial militar atirou contra uma dupla em uma moto, não havendo troca de tiros, apenas uma ação do policial que acabou vitimando a pequena Ághata. 

Quem esperava uma postura republicana, ou ao menos humana de nosso presidente, caiu do cavalo. Bolsonaro, que é um ávido tuitero , não soltou uma nota de pesar sequer pela morte da garota, apesar da repercussão nacional.

O presidente adotou postura idêntica no caso que envolveu o assassinato de um músico no Rio de Janeiro, onde o Exército metralhou com oitenta tiros o carro de uma família que estava indo para uma festa. Bolsonaro só foi se manifestar cinco dias após o ocorrido e o foco de sua fala foi a defesa do Exército. E não o pesar para a família que foi vítima de tal atrocidade.

Nosso presidente deixa claro que, sempre que um oficial estiver envolvido na morte de algum inocente, ele não irá se manifestar. Essa postura fica ainda pior, quando nos lembramos que o presidente correu as redes sociais para exaltar o "legado” do "artista” MC Reaça, após o mesmo se matar. O presidente afirmou em seu twitter que MC Reaça  "será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil".

 Vale lembrar que MC Reaça cometeu suicídio após espancar sua amante até a quase a morte. O motivo foi que a mesma achou que estava grávida dele. É lamentável que a morte de inocentes tenha menos valor para o presidente do que a narrativa política que ele quer sustentar. 

É necessário que façamos o debate dos problemas de segurança pública de forma menos passional e mais racional. No mundo todo, o que se mostra eficiente no combate ao crime organizado é a inteligência policial. 

Ações para asfixiar financeiramente as quadrilhas, para investigar e descobrir quais são seus chefes e articuladores, para garantir o combate do tráfico de armas que abastecem o crime são o que dão resultados concretos e relevantes, e não tiroteios dentro de morros.

 O crime organizado não tem problema em substituir seus "peões” mortos em tiroteios com a política. O Exército brasileiro ocupou dezenas de favelas no Rio de Janeiro e, ainda assim, o tráfico de drogas e a violência continuaram os mesmos. 

Não é a morte do "aviãozinho pé de chinelo” que faz qualquer diferença para o tráfico. O helicóptero cheio de pasta base de cocaína, do senador Perrella apreendido em 2017, é a prova viva de que o crime organizado está mais próximo da Praça dos Três Poderes em Brasília do que nas favelas do país.

Apesar de todas as evidências materiais de que estamos perdendo vergonhosamente a guerra contra as drogas, e de que realizar apreensões, prisões e matar traficantes não reduzem os números da violência, e tão pouco acabam com o consumo de drogas no país, nossos políticos continuam se recusando sequer a abrir um debate com a sociedade sobre a legalização de certos tipos de drogas. Seguem defendendo operações policiais com muita troca de tiros e vítimas por todos os lados (e aqui, se incluem a dos militares que eles tanto dizem proteger).

Para políticos como Bolsonaro, o importante é manter a retórica ideológica de "pulso firme” contra os criminosos, de defender tiroteios em favelas como parte de uma política de segurança pública eficiente. Mortes de inocentes nesta guerra sem sentido são vistos como "efeitos colaterais necessários”.

 Infelizmente, o debate sobre segurança pública no Brasil continua sendo pautado por visões conservadoras a respeito das drogas e do crime organizado. Continua sendo dado mais valor à opinião do apresentador de programa policial, que todo dia fica relatando prisões e troca de tiros entre criminosos e policiais, do que a opinião de estudiosos sobre segurança pública.

Ao que tudo indica, a pequena Ághata não será a última vítima dessa guerra sem sentido.







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