Breno Aragon

Tecnólogo em informática, presidente do PSOL em Rio Preto e ex-integrante do Vergonha Rio Preto


É oficial: Chegamos ao fundo do poço

Por: Breno Aragon
26/02/2020 às 09:10
Breno Aragon

Secretário de cultura nazista, indícios de favorecimentos pessoais na SECOM, Enem desmoralizado e destruído, problemas no Sisu, Prouni e Fies. O guru do governo, o "filósofo” Olavo de Carvalho acusando Bill Gates de ter criado o Corona vírus e nosso presidente esbanjando xenofobia ao falar que índios brasileiros são "quase gente”, e o "Posto Ipiranga” Paulo Guedes cometendo sincericídio ao admitir que empregadas domésticas irem a Disney deveria ser coisa de outro mundo.

Em meio a todo esse caos criado pelo governo, o maior partido de oposição a Bolsonaro, o PT, dá golpe nos funcionários públicos da Bahia aprovando uma reforma da previdência igual a de Guedes e Bolsonaro, de forma truculenta e arbitrária, apagando as esperanças de quem esperavam do partido algum giro a esquerda capaz de encampar um programa econômico e social radicalmente opostos ao de Bolsonaro após a soltura de Lula. Isso tudo nos mostra: Estamos no fundo do poço. 

O ano de 2020 mal começou e se mostrou carregado de tensões e apreensões pelo mundo: Conflito militar entre EUA e Irã, Corona Vírus na China, efeitos culturais e econômicos do Brexit que ainda irão dar muito o que falar. Como se já não tivéssemos muitas coisas para nos preocuparmos, o governo Bolsonaro faz questão de continuar sendo uma fábrica de absurdos e de destruição social. O cenário fica ainda mais desolador, quando vemos uma oposição inerte e incapaz de formular um programa político sólido e coerente que seja debatido e aceito com a sociedade. 

O Brasil vem sofrendo com uma crise econômica e social a alguns anos, e os reflexos perversos dela são continuamente sentidos pela classe trabalhadora de nosso país: arrocho salarial, perda de direitos sociais e trabalhistas históricos são os ingredientes de um grande caldeirão de revolta popular, mas que se depara com  uma grande massa de desemprego e empregos precários e informais que agem como uma espécie de barreira que amedronta e inibe os trabalhadores assalariados de se insurgirem em grandes mobilizações e greves. A crise no mundo do trabalho no Brasil é profunda e têm múltiplas causas nacionais e internacionais, e os últimos governos (leia-se Dilma, Temer e agora Bolsonaro), têm dado como remédio amargo a mesma receita neoliberal: diminuição do papel do Estado, dos direitos dos trabalhadores, dos gastos sociais para com os mais pobres ao mesmo tempo em que diversas regalias são dadas a grandes grupos empresariais na esperança de que estes retomem as contratações. Vivemos uma espécie de distopia, onde o remédio está matando o paciente e os médicos continuam apostando que a solução é aumentar a dosagem. 

Se o cenário econômico e trabalhista é terrível, o cenário governamental e social sobre a batuta de Bolsonaro é ainda pior. Apenas no mês de janeiro desse ano, nos deparamos com dois escândalos de proporções titânicas: Tínhamos no comando da Cultura de nosso país no último ano um nazista, e como se o susto não fosse o suficiente descobrimos que o Ministério da Educação conseguiu o impensável, desmoralizar e destruir o Enem em apenas um ano prejudicando e afetando o sonho de milhões de jovens estudantes brasileiros.  As duas grandes polêmicas levantam mais perguntas do que respostas: Por que tínhamos um nazista, operando e articulando os programas de fomento e acesso a arte em nosso país? Qual a relação o presidente Bolsonaro tinha com ele? 

Qual o grau de confiança que existia entre os dois? As ações que o nazista Alvim comandou na secretaria de cultura ao longo do último ano serão anuladas e revistas? Como o mundo está olhando para o Brasil, após escândalos ambientais sendo sucedidos por um escândalo envolvendo um chefe de Estado Nazista? Regina Duarte é reconhecidamente uma boa atriz, mas será que isso bastará para comandar e administrar uma pasta tão vital para o país? Quais os projetos e visões ela apresentou ao governo, ou discutiu com especialistas na área durante o tempo em que estava "noivando” com o governo? Saindo da cultura e indo para a educação, nós temos uma pergunta fundamental: Por que Weintraub ainda não caiu? Dotado de uma imensa ignorância formal, e uma incapacidade administrativa gigantesca, o ministro falastrão parece se manter no cargo, por ser justamente uma espécie de reflexo direto do Bolsonarismo, onde o importante é acumular intrigas, brigas e polêmicas em seu twitter, ao invés de cuidar de sua pasta. 

A menos de um mês, o ministro disse a uma internauta, que sua mãe era uma "égua sarnenta e desdentada” deixando atônito qualquer cidadão que esperasse alguma compostura exigida pelo cargo por parte do Ministro. Quase que paralelamente a isso, sua pasta começava a enfrentar os efeitos dos erros produzidos no Enem. Milhares de estudantes tiveram suas provas corrigidas de forma errada, e a postura do Ministro foi a de destratar jornalistas e opositores ao invés de apresentar algum plano emergencial. Segundo o jornalista e comentarista político liberal e de direita Reinaldo Azevedo "a primeira edição do exame sob o seu comando conseguiu destruir o que se se construiu ao longo de 21 anos: a confiança no resultado, de sorte que funcionários do próprio MEC dizem — sob anonimato, claro! — ser impossível assegurar que o resultado colhido é 100% confiável…”. 

A revolta popular, que já é freada pelo crescente desemprego e informalidade, ganha ainda um contorno mais crítico: A falta de um partido político que tenha condições de enfrentar Bolsonaro e formular um programa econômico e social capaz de lhe fazer frente. É triste ver, que o maior partido de oposição a Bolsonaro, o PT, aplica o mesmo programa econômico de Bolsonaro e Guedes nos Estados em que governa. Ora, como esperar que os servidores públicos da Bahia (e de todo país) acreditem que o PT não atacaria os direitos dos trabalhadores, quando na primeira oportunidade que têm, ele leva a cabo a agenda Guedes, replicando seus argumentos e seus métodos truculentos? Aqueles que esperavam que a soltura de Lula criaria um elemento de instabilidade política importante no regime e no governo Bolsonaro, quebrou a cara. 

Lula está em campanha, seus discursos pelo país não visam criar e canalizar a revolta popular num levante insurgente, mas sim em um descontentamento social que se convença de que a maneira correta de reagir as frequentes atrocidades do governo Bolsonaro seja a de votar na oposição nas eleições de 2020 e 2022, resta saber se teremos Estado ou direitos civis até lá. Quem ao menos esperava uma ruptura institucional do PT também se decepcionou com as notícias de que o partido quer Marta como prefeita ou vice na cidade de São Paulo, e de que o MDB (principal partido articulador do impeachment de Dilma) é um dos partidos no arco de alianças petistas para as próximas eleições. 

Se de um lado temos um governo com uma agenda econômica e política anti-povo, e uma oposição de esquerda envelhecida, burocratizada e acomodada, restavam as esperanças de que partidos mais radicais entendessem de que existe um vácuo político enorme para as ações mais radicalizadas e menos institucionalizadas. O fato de que uma aliança democrática com todos os partidos que se postulem contrários a barbárie social estimulada e promovida pelo Bolsonarismo se faz necessária, não pode apagar a liberdade de crítica entre seus membros. Não é possível negar de que a culturas políticas e econômicas criadas por um partido de uma esquerda social democrata como o PT durante 13 anos, deu margem para a criação do caldo social que vivemos hoje. Se é necessária a unidade, também é necessária a formulação de um novo programa e de novas figuras e lideranças políticas, que sejam independentes daquelas que governaram o velho regime.  

De fato, embora essa seja uma necessidade real, ela parece estar longe de ter a amplitude e a potência necessária para a atual conjuntura, inclusive muitos opositores da velha esquerda petista e ao bolsonarismo, não parecem estar convencidos de que esse é o momento de levantar ainda mais suas bandeiras e de radicalizar na política, parecem acreditar na institucionalidade e nos mesmos palanques com as mesmas figuras como o caminho que irá nos tirar dessa situação.  E essa equação de um governo autoritário e destruidor do Estado, junto com a falta de uma oposição sólida e coerente, não nos deixam dúvidas: Chegamos no fundo do poço. 






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