Cacau Lopes

Médico e professor da Famerp


Pensando o Pensamento: um exercício de liberdade

Por: Cacau Lopes
19/08/2019 às 11:14
Cacau Lopes

Sem espaço público a condição humana não se realiza plenamente, uma vez que é neste espaço que a oolítica mora, vive e se renova. A Política se refere à instituição permanente e incessante do espaço público, da partilha do sensível, daquilo que deva ser comum a todos os humanos.

Esta é umas das chaves para se compreender o contexto atual do mundo e do Brasil, onde a ação política se encontra restrita e subordinada à economia. Este processo de esvaziamento da dignidade da política tem se dado por intermédio de dois movimentos simultâneos: tornar o pensamento supérfluo através do combate à filosofia, à cultura, às ciências sociais e ao conhecimento científico de uma maneira geral, enfim, da imposição de uma educação acrítica, e o da destruição do espaço público como local de construção de formas de convivência, de definição e de partilha do comum.

Segundo Hannah Arendt, a política é algo que ocorre entre as pessoas. Ela se dá sempre na presença de um outro. A vida política não se realiza em nenhum indivíduo particular, mas em meio aos indivíduos, por intermédio da palavra, de um discurso instaurado para combater e deter a violência do mais forte. Em um tempo histórico e numa sociedade onde individualismo é divinizado, a Política passou a ser meramente uma questão de administração das pessoas. A Política se transformou em uma tecnologia de administrar a sobrevivência da vida nua, do sexo sem tesão, do café sem cafeína, da comida sem sal, da corpolatria, onde a experiência do mundo se resume a um enquadramento de selfie. Administrar e gerenciar comportamentos, no sentido de transformar as pessoas em massa de consumo, em seres conformados, normalizados e disciplinados: é nisto que se converteu a política.

Somos seres de relações e a pluralidade é a Lei da Terra. Se nós não estamos apenas no mundo, mas com o mundo e com os outros, compartilhando um tempo e um espaço, isto nos torna responsáveis pelo presente e pelo futuro, nos fazendo um "animal político”, desde o nosso nascimento, querendo ou não. 
Dentro do pensamento filosófico ocidental, desde Platão, a questão da verdade é um problema central. A verdade, dentro desta perspectiva, é diferente e oposta à doxa (opinião). Ter opinião é diferente de pensar. Pensar implica em refletir, indagar, desobedecer. 

O pensamento é uma atividade independente — trata-se mesmo da mais livre atividade humana. Pensar é o que dispomos para apreender a dimensão significativa da experiência. Diz respeito, justamente, ao como compreender e proceder frente aos eventos que não se dão segundo as leis naturais, mas como se apresentam como acontecimentos únicos, como aqueles que ocorrem no âmbito da relações entre pessoas.

Paul Valéry (1871 – 1945) vai dizer que o espírito (aquilo que emana, que dá vida ao mundo) está se transformando em coisa supérflua. "Estamos numa época na qual a civilização está arriscada a morrer pelos meios da própria civilização”. Para o poeta, filósofo e escritor francês, o jeito mais fácil de se acabar com uma civilização é começar a destruir, primeiro, o seu espírito. Torna-se importante frisar que quando Valéry fala de espírito não está se referindo a algo metafísico, "santo”, mas a uma potência de transformação criadora, ativada pela nossa capacidade de pensar.

O espírito jamais se põe a serviço de quem quer que seja. Ele é rebelde, é o que sempre diz não.
Montesquieu (1689 – 1775) alertou que a principal característica da Tirania era o isolamento. O isolamento do tirano em relação aos súditos e dos súditos entre si através do medo e da suspeita generalizada. Portanto, para o político e filósofo francês, a Tirania não era uma forma de governo como qualquer outra, mas contradizia a condição humana essencial da pluralidade, o fato de agirmos em conjunto. Este agir em conjunto, condição de todas as formas de organização política, sempre pressupõe um espaço público democrático.

Se somos plurais, temos que dar testemunho da singularidade do outro, por isso que a nossa existência é Política e a tarefa de pensar é também Política. Estamos vivendo em um tempo no qual a atividade de pensar, de refletir está se tornando supérflua, o que acarreta um colapso da moral. Moral, aqui, tomada no sentido kantiano do dever ético, do questionamento dos motivos que movem o meu fazer. A virtude está justamente na capacidade de pensar. Dizer que existe uma moral natural é afirmar que somos incapazes de pensar. Não existe uma moral natural, eterna, e justamente por isso é que somos responsáveis por tudo que escolhemos e fazemos. Ou seja, não existe noção de obediência em política, ela deve ser substituída pela palavra apoio. 

Somente assim saberemos o lugar em que estamos, o quê e quem apoiamos e do que somos cúmplices. Hitler não começou poderoso, ele tornou-se poderoso por intermédio do apoio da massa que aplaudia suas ideias e ações sem pensar. Todo fanatismo não favorece o pensamento, pois pensar implica em desobedecer, poder dizer não. Portanto, meu silêncio me torna cúmplice da banalização do mal.

O sentido da política é a liberdade, por isso temos o direito de termos expectativas de milagres. O seres humanos, enquanto são capazes de pensar e agir, são sempre portadores do devir, do improvável e do imprevisível.  Somos capazes de produzir o espanto: este é o sentido e a função do milagre que se dá em cada nascimento de uma vida, mesmo que severina, mas que traz em si uma explosão em forma de um balão. 

Seguindo as pegadas filosóficas de Hannah Arendt, cada pessoa não nasce para morrer, mas para recomeçar. Justamente por este fato, é que eu tenho que dar testemunho da minha singularidade. A nossa capacidade de julgar e de escolher só será aperfeiçoada se formos capazes de pensar, mas de pensar publicamente. Não há abuso mais abominável do que o de querer impedir qualquer pessoa de pensar.

Portanto, a banalização do mal, tão presente nas palavras do atual presidente e de seus seguidores, está na estratégia da recusa das redes virtuais e reais, da política, da cultura de massa que buscam nos impedir de pensar, nos tornando individualidades seriais, seres disciplinados, obedientes, enfim, conformados. Diante deste valores que querem incutir em nós, através de um pensamento desprovido de significação, cabe aqui neste texto, que não quer ser portador de nenhuma verdade, uma última reflexão:

O caminho do pensar, da reflexão é um pouco mais difícil e árduo do que as promessas de felicidade fáceis inscritas nos manuais de autoajuda, e nas religiões da prosperidade, onde só o que importa é tão-somente a mesmice do prazer que se volta sempre para o eu-mesmo e para o lucro dos seus pregadores. 
Pensar exige que cada um de nós esqueça, nem que for por alguns momentos, nossas verdades particulares, para se aventurar em uma aventura incerta de buscar verdades — sempre provisórias e instáveis — comuns, compartilhadas em um espaço público. Este é o verdadeiro Ato Político, o ato de sair do ou (ou eu ou ele) e tentar a experiência do com, do entre (viver em meio aos humanos). Mas é justamente aí, penso, que se vislumbra a beleza da vida: na capacidade da gente se aventurar para além de nós mesmo. No dizer do filósofo-jagunço Riobaldo:

"Um dia ainda entra em desuso matar gente. A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo no meio do fel do desespero. Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto. Viver é um descuido prosseguido. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é. Deus é paciência. O contrário é o diabo. O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. A vida da gente vai em erros, como um relato sem pés nem cabeça, por falta de sisudez e alegria.  Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura".
(Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)






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