Foto por: Reprodução
Médica Regina Chueire

’Passada a pandemia, teremos uma avalanche de doenças crônicas e mentais’, diz a médica Regina Chueire

Por: Da Redação
18/10/2020 às 08:50
Eleições 2020

Lidar com esse "novo normal” na saúde será o grande desafio na área de quem ganhar a eleição para prefeito de Rio Preto, segundo professora da Famerp e diretora do Lucy Montoro

Numa cidade em que o bolsonarismo ganhou forte adesão das lideranças médicas e dos profissionais em geral em 2018, a fisiatra, professora da Famerp e diretora local do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro, Regina Chueire, foi das poucas vozes dissonantes entre os nomes de verniz da categoria. 

Sem medo de falar o que pensa, ela fez das redes sociais uma trincheira de defesa das suas ideias, o que, em tempos de polarização e disseminação do ódio, exige coragem e descolamento do corporativismo da categoria. 

Com essa mesma autenticidade, Regina Chueire foi vereadora (2001 a 2004), secretária do Bem-Estar Social (gestão Liberato Caboclo), secretária de Habitação (primeira gestão Edinho Araújo) e secretária da Mulher e Pessoa com Deficiência, Raça e Etnia (gestão Valdomiro Lopes). Também presidiu a Sociedade Brasileira de Fisiatria. Hoje, é professora da Famerp, diretora da unidade Rio Preto do Instituto de Reabilitação Lucy Montoro e diretora-presidente da Faperp. 

Na entrevista abaixo, a médica fala do cenário político atual, dos desafios do próximo prefeito na saúde, como avalia os poderes municipal, estadual e federal na condução da crise sanitária e, também, porque o conservadorismo, a seu ver, se enraizou tão fortemente entre seus pares. E expõe uma convicção. "O SUS mostrou nesta pandemia que é mais forte do que qualquer corrente política ou econômica”.  Confira... 

DLNews: A senhora acredita que a onda de insatisfação generalizada e de direita, que varreu veteranos da política local na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal em 2018, vai se repetir nas esferas municipais neste ano, especialmente em Rio Preto? 
Regina Chueire: Toda eleição temos uma renovação de 30% a 40% das cadeiras. Neste ano não será diferente. E acredito que teremos novos nomes, mais à direita do espectro político, pois nossa cidade é conservadora.

DLNews: Em 2018, médicos do SUS e da saúde privada atuaram fortemente pela eleição de Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência, em Rio Preto. Por que a categoria por aqui aderiu de forma tão intensa ao bolsonarismo? 
Regina Chueire: Antes de serem médicos, os profissionais daqui são rio-pretenses e esta cidade, como já coloquei, é de perfil conservador a despeito do protagonismo regional e progresso econômico que apresenta. No passado, os médicos brasileiros eram vocacionados para o atendimento às camadas mais vulneráveis da população. Com o passar do tempo, isso mudou. Quando participei da AMB (Associação Médica Brasileira), como presidente da sociedade médica da minha especialidade, observei estarrecida este comportamento.

DLNews: Os ministros da Saúde no Brasil foram, em sua grande maioria, médicos. Mas já teve economista, advogado, engenheiro civil, químico e agora um general. Para ser ministro ou secretário da área tem que ser necessariamente um profissional da saúde? Quais seriam os principais pré-requisitos?
Regina Chueire: Para ser ministro ou secretário não há necessidade de ser médico e, sim, um bom gestor, como em quase tudo na Administração Pública, até porque o orçamento da saúde é muito pequeno. Não se esqueça que quem "quebrou" a patente dos medicamentos contra a Aids foi um ministro da saúde economista, e sua política em relação à epidemia da Aids foi exemplo mundial. A diferença é que os ministros não médicos tinham por trás deles uma equipe de especialistas nas áreas necessárias, o que não ocorre hoje. O ministro-general desmantelou toda a cúpula de especialistas do ministério.

DLNews: De zero a dez, que nota a senhora dá aos governos Edinho (municipal), Doria (estadual) e Bolsonaro (federal) no combate à crise sanitária do novo coronavírus até aqui. Por quê?
Regina Chueire: Vamos começar com a esfera municipal: nota 8. O secretário, doutor Aldenis, é um homem íntegro, competente e muito sério, auxiliado por sua equipe e pelo doutor Maurício Nogueira, virologista, autoridade internacional. Acontece que ficou tudo nas costas da Secretaria da Saúde e, em nenhuma das coletivas, vi as outras secretarias apoiando num momento tão difícil da nossa história. Um exemplo é um número pequeno de fiscais de posturas, para fiscalizar os estabelecimentos na retomada do comércio. E a guarda municipal, que poderia abordar os munícipes e orientá-los ao uso da máscara nos lugares públicos, além de evitar aglomerações. 

Na esfera Estadual dou nota 8 também. O governador Doria montou uma equipe intersecretarial, proveu equipamentos no Estado inteiro, criou o plano São Paulo e instituiu hospitais de campanha. Além de pesquisar a vacina, também estimulou a criação de programas de reabilitação pós-covid na rede Lucy Montoro. Pecou porque, quando a Capital, litoral e as cidades do entorno estavam no pico, ele fechou o Estado inteiro e não apenas as regiões afetadas. 

Quanto à esfera federal, minha nota é zero. Ou até negativa. Negaciosnimo, trocas de ministros, recomendações de medicamentos de eficiência não comprovada pela OMS, não apoio à quebra de patentes para novos medicamentos ou vacinas nas cortes internacionais, briga com os entes federados, além do próprio comportamento infatiloide do presidente.
 
DLNews: Quais os desafios que o futuro prefeito de Rio Preto enfrentará na área da saúde, na avaliação da senhora?
Regina Chueire: Passada a pandemia, e espero que seja logo, vamos viver um novo normal e teremos uma avalanche de doenças crônicas, represadas pela ausência de atendimento no ano de 2020. Sabemos que as doenças mentais serão muito grandes. Nosso País e Rio Preto, infelizmente, não ficarão de fora. O novo prefeito deverá continuar a investir na atenção primária, equipamentos sociais e de cultura, pois saúde é o bem-estar físico, psico e social do homem. Não pode também esquecer das periferias e transformar esse modelo hospitalocêntrico que está sendo criado com a obra da zona norte, em um difusor dessas práticas.

DLNews: Na Legislatura entre 2001 e 2004, a Câmara de Rio Preto tinha seis médicos entre os vereadores, incluindo a senhora. Atualmente, não tem nenhum. Os médicos perderam prestígio político com o tempo ou perderam o interesse na política local? 
Regina Chueire:  Ainda existem candidatos médicos, portanto eles não perderam o interesse na política local. Talvez por um distanciamento do seu discurso em relação às aspirações da população, eles perderam o prestígio, a conferir nesta eleição.

DLNews: A senhora foi vereadora, secretária de governo do município, mas acabou se afastando de disputas eleitorais. O que a levou a desistir?
Regina Chueire:  Continuo fazendo política, não de forma partidária-eleitoral, mas, sim no meu trabalho e na minha vida pessoal. Sou militante nas causas das pessoas com deficiência, mulheres e população vulnerável. Converso muito e aprendo com meus alunos da Famerp e com meus residentes, assim como meus pacientes. Acompanho a política nas redes sociais e estou sempre discutindo com outros ativistas e amigos da área. Interessante que nesses últimos anos sempre encontro alguém que me pergunta se não quero voltar...

DLNews: Como a senhora vê hoje a representação das mulheres nas esferas de poder, onde se destacam Janaína Paschoal, Carla Zambelli, Joyce Hasselmman, com discursos fortemente conversadores e contrários a muitas das bandeiras feministas? O feminismo perdeu a guerra?
Regina Chueire:  Essas mulheres ganharam a eleição na onda do conservadorismo, porém há um esvaziamento dos seus mandatos, pois eles não se sustentam a longo prazo na maré baixa. Um exemplo é a Joice, que amarga 1% de intenção de votos em São Paulo e a Janaína, que me parece perdida com a propositura de suas leis. E elas se esquecem que graças ao feminismo podem votar e serem votadas. O feminismo não perdeu a guerra, fico emocionada com o novo feminismo, que está sendo construído pelas mulheres pretas, nas periferias. E pela juventude, na luta contra a violência, a favor do aborto, contra o racismo e a favor da igualdade salarial.

DLNews: O SUS corre risco diante deste neoliberalismo que tanto se defende?
Regina Chueire:  O SUS mostrou nesta pandemia que é mais forte do que qualquer corrente política ou econômica. Ele é o melhor "plano de saúde" do mundo e, deve ser aperfeiçoado.

DLNews: A senhora se preocupa quando vê religião e política se confundindo, como ocorre hoje no Brasil?
Regina Chueire:  O Estado é laico e fico muito preocupada com qualquer radicalismo, especialmente com perseguições às religiões de matriz africana. E sugiro, para quem não leu ou assistiu, a obra "O Conto da Aia" para se aprofundar sobre os perigos dessa associação de Estado e religião.

DLNews: A senhora teme hoje pela democracia no Brasil?
Regina Chueire: Não, pois temos instituições fortes. Estamos passando apenas por uma turbulência e o povo brasileiro vai resistir.






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