Aos 94 anos, Joel Tavares é o "maluco beleza" de Rio Preto, mas fiel ao sertanejo raiz

Por: Augusto Fiorin / Especial para o DL News
10/11/2019 às 11:20
Cidades

As barbas longas e os óculos escuros compõem uma expressão para lá de conhecida no rock brasileiro. Raul Seixas, se ainda estivesse vivo, poderia ser facilmente confundido na rua com o aposentado rio-pretense Joel Tavares, 94 anos.

Como o sósia famoso, o nosso "Maluco Beleza” grisalho também nutre admirável paixão pela música. É compositor dos bons e, ao longo de mais de sete décadas, assinou sucessos ainda hoje reproduzidos nas rádios brasileiras.

Mas ao contrário do autor de Gita, Metamorfose Ambulante e Tente Outra Vez, Tavares é um aficionado por outro estilo musical: o sertanejo raiz. Acumula 356 letras em seu repertório, entre elas, "Deus te Pague”, destaque nas vozes de Liu e Léo, "Triste Partida”, gravada por Moreno e Moreninho, e "Fazendinha do Indaiá”, imortalizada por Cascatinha e Inhana.

Belmonte e Amaraí, Pedro Bento e Zé da Estrada, Mensageiro e Mexicano, Lourenço e Lourival, Zé Carreiro e Carreirinho, entre tantos outros, também se renderam ao talento do musicista. Na varanda de sua chácara, na zona rural de Rio Preto, rodeado de muitas plantas e lembranças, trava costumeira batalha com os pássaros empoleirados nas árvores. Mas é Tavares quem canta mais alto em seu quintal: "querida aceite estas flores que apanhei pra te ofertar”, cantarola.

Nascido em uma pequena cidade de Minas Gerais, criado em Socorro (SP) e rio-pretense há quase 30 anos, o aposentado do Exército brasileiro se recorda com saudade da primeira composição, "Escola Querida”. "Uma singela homenagem aos dedicados professores desse Brasil”, diz.

Além das canções, major Tavares, como é conhecido, também é poeta. Escreve suas inspirações e sempre que possível as declama aos amigos que cultiva. "No Hospital de Base principalmente”, afirma.

Em 2001 precisou ser submetido a uma cirurgia cardíaca de grande porte na instituição, enfrentou muitos obstáculos, mas se recuperou. Tornou-se voluntário no complexo hospitalar, onde possui até crachá. "Às terças-feiras estou lá, ajudando naquilo que é preciso e possível para um jovem”, brinca.

Casado com Maria Cardoso de Moura Tavares, a quem chama carinhosamente de Preta, diz ter sido essa a principal decisão ao longo da vida. "Compartilhamos todos os momentos há mais de 40 anos. A agradeço diariamente por ser minha esposa, minha parceira. Sou o homem mais feliz do mundo ao lado dela”, se declara.

No coração "restaurado” no HB, uma dor que remédio nenhum é capaz de tratar, a saudade do filho que não vê há tempos. "Sei que está em São Paulo, recebo notícias, mas não posso obrigá-lo a me visitar”.

A sala de casa é decorada com muitas fotos, um berrante, objetos antigos e uma cômoda reservada aos CDs, mais de uma centena deles. Porém, dois diplomas têm lugar especial na parede de acesso aos dormitórios. Foram entregues pela Câmara dos Vereadores em reconhecimento às quase 400 composições de sua autoria. "Os guardo com carinho”, complementa.

Da vida no Exército não gosta de falar. "Nem pensar”. E mesmo com tantos CDs, música também não ouve. Segundo ele, a lembrança dos amigos ausentes dói tanto quanto a saudade do "menino” que partiu a capital e não voltou. "Sinto falta de cada um. Dividimos momentos ainda presentes em meus dias, desde composições até as mais inusitadas aventuras”, lamenta.

Em sua chácara de dois mil metros quadrados, major Tavares cultiva uma horta, galinhas e frutas. Na garagem, um Escort tirado zero na antiga concessionária da Ford bate os 47 mil quilômetros. "Tem muita gente cobiçando, mais não pretendo vendê-lo. Não dirijo mais, pois tenho ônibus na esquina de casa. Mas está bem guardado aqui”, explica.

Mantém vivo o sentimento de civismo e o amor à Pátria. No portão, um pequeno cartaz escrito à mão revela compaixão não notada até então, a tristeza pela morte de uma das vizinhas. "Sim, estamos de luto. Era muito jovem”, se emociona. Na mesma velocidade em que a lágrima escorre dos olhos claros, o sorriso teima em renascer na face marcada pelo tempo. Questionado sobre as maiores alegrias, responde sem titubear: o encontro com as filhas e o HB. "São meus amores”, completa.

De volta às composições, diz estar na estrofe final de uma nova música, "Primeiros raios de sol”. Tavares volta a cantar. Vocaliza mais uma, duas, três canções sertanejas. Pede por mais uma foto, solta uma gargalhada estrondosa, agradece e entra. É ele, um "maluco beleza” com a pura essência de "velhinho da porteira”. Deus te pague!










Anunciar no Portal DLNews

Seu contato é muito importante para nós! Assim que recebemos seus dados cadastrais entraremos em contato o mais rápido possível!