Rei da noite, Bardari vive em uma casa só, mas feliz

Por: Augusto Fiorin - Especial para o DLNews
17/11/2019 às 11:28
Cultura e Diversão

A murta verde e viçosa esconde parte da fachada do antigo imóvel da Vila Imperial. A varanda emoldurada por vidros e a escada rústica de acesso à entrada principal lembram, mesmo que repentinamente, os diversos estabelecimentos noturnos comandados pelo dono da casa. Lembranças do tempo em que a noite rio-pretense era abrilhantada pelas performances de Luiz Carlos Bardari, 65.

E mesmo depois de algumas décadas, a voz potente que ecoou pelos principais karaokês da cidade ainda vibra com intensidade. Ao som de "We are the champions”, o artista se emociona ao recordar de quando era reconhecido como o rei da noite. 

Antes disso, porém, formou-se ator pela Escola de Arte Dramática da USP em 1978, em Pedagogia em 1983 e em Psicologia em 1985. Iniciou a vida artística aos 15 anos, mas enfrentou inúmeras dificuldades, a maior delas a resistência do pai. Em São Paulo foi admitido em concurso para a Academia de Polícia Civil. Morando nos alojamentos da instituição, logo se viu novamente nos palcos da vida. 

Apresenta com orgulho o título de Melhor Ator Coadjuvante do Prêmio Governador do Estado de Teatro Amador com a peça "O Choque das Raças”. Talentoso, foi convidado para compor o elenco da novela Marrom Glacê, na Rede Globo. Rasgou o contrato na frente da diretora famosa. "Queriam me pagar a metade do salário dos principais atores da época”, diz. 

Retornou ao interior e passou a organizar eventos em bares de Rio Preto. No "Templos” cantou ao lado de Raul Seixas, no "New York” deu início à vida de promoter. "Berro d´Água”, "Sarau” e "Champanhe” também se renderam à sua arte de arrastar multidões. "Passei a ganhar muito dinheiro com a noite. As pessoas me acompanhavam, era só as convidar. As casas lotavam, todas”, afirma. Com a fama repentina, comprou casas, carros e, literalmente, incendiou o vil metal. "Ganhava mais que o presidente da República”.

Hoje, sozinho na vivenda imponente, se arrepende de não ter feito o chamado pé-de-meia. "Vivo com o meu salário de agente penitenciário, na companhia de um pequeno rádio, um Fiesta antigo na garagem e uma tevê que me permite assistir aos jogos do Corinthians”.

Com a fortuna que acumulava, fundou o Maky Karaokê, no Centro. Mas os vizinhos logo o impediram de trabalhar. Em seguida inaugurou o ZYB, um sucesso de público e, posteriormente, talvez uma das casas mais famosas do noroeste paulista: o Notorious, no coração da avenida Murchid Homsi. No espaço, inovou em vários aspectos. Um deles foi deixar tocar uma ou duas músicas entre uma apresentação e outra dos cantores amadores. A iniciativa possibilitou que a pista de dança ficasse sempre lotada. "Surgiu, assim, a expressão boateokê”, relembra.

Mas nada se compara as apresentações e dublagens ainda tão presentes na memória dos que frequentaram o espaço. Entre um cigarro e outro, Bardari parece reviver cada um daqueles momentos. Com os olhos claros fechados, canta um trecho de "Amigos para siempre”, interpretada por Sarah Brightman e José Carreras durante a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 1992. Freddie Mercury, As Frenéticas, Ângela Maria e Reginaldo Rossi complementavam o espetáculo do intérprete, transformando a noite em puro glamour. 

Além de showman, Luiz Carlos administrava seus espaços como ninguém. Fazia conta de tudo que adquiria, desde um simples copo de água mineral às mais caras bebidas oferecidas aos clientes. Certa vez substituiu o fornecedor de água por causa de R$ 0,01. "Em um ano a diferença significou a uma motocicleta zero quilômetro”, explica. Mas o tempo passou e Bardari já não gozava da saúde do jovem de antigamente. Cansou e decidiu abandonar a vida noturna que tanto almejou um dia.

A síndrome do pânico passou a ser companhia constante. Encontra-se afastado do cargo de agente devido à doença que insiste em não abandoná-lo. Consome medicamentos dia a dia, garante ter sofrido 15 pré-infartos, mas ainda desfruta de prestígio de quem um dia foi seu fã: tem médicos à sua disposição a qualquer momento, profissionais que o assistem e dão carinho quando necessário, e a família que não o deixa por um só dia. "Saio muito pouco de casa e conto os amigos verdadeiros em apenas uma das mãos. Não conheço mais uma casa noturna”, garante. 

Ao longo da vida, Bardari acumulou experiências de todas as formas. Casou, mas não gostou. Ganhou, mas não levou. Lembra com saudade dos pais José Francisco e Mafalda e da pequena Ibirá, onde nasceu. Da cidade, nutre boas lembranças da água consumida ainda hoje e do sorvete de passas do seu primo Fiorin, na esquina da praça.

Garante não segurar a emoção ao lembrar de cada rosto eufórico enquanto se destacava nas madrugadas quentes. Cultiva um sonho: ver o brasileiro escolhendo seus representantes com sabedoria e dignidade.  A palavra que define como sua é gratidão. Bardari se despede apressado, corre pra sala e celebra com um pulo atlético: gol do Corinthians. A Rio Preto que resiste é quem o agradece. Valeu, rei!







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