Jill Castilho

Arquiteto e escritor


A transformação

Por: Jill Castilho
08/09/2019 às 10:15
Jill Castilho

A contínua rotina traiçoeira, devoradora de tempo, nos tira a percepção do quanto já caminhamos, do quanto já lutamos e do quanto já vencemos.

Parece que foi ontem que meus filhos chegaram em casa, receosos, cheios de medos, frustrações, com um monte de sentimentos controversos. Parece que foi ontem, que eu era um homem inseguro, cheio de medos, receoso, detento de sentimentos os quais ainda não conhecia.

Há quase quatro anos, estava eu, sentado numa escada de um prédio público de uma cidade mineira inóspita e distante, assistindo a uma corrida de bicicleta, vivendo um turbilhão de emoções, lidando com preconceitos de pessoas nunca antes vistas, conhecendo Meus Futuros Filhos... 

Nesta escada estavam sentados, além de mim, meu marido e meus recém conhecidos filhos. Minha menina, a mais nova dos três, com 5 anos, estava sentada na minha frente num degrau abaixo do meu, ao meu lado meu esposo, já meus meninos, mais dois ou três degraus abaixo. 

De costas pra mim, minha futura filha deixa a minha vista seus lindos pretos cachos, os quais me convidaram a acariciá-los. Quando encosto meus dedos nos seus cabelos compridos, sem titubear ela passa a mão em todos os fios, e os recolhe pra frente do seu ombro direito, mostrando sua aversão ao meu ato, não restando nenhum cacho para acariciar.  

Naquele mesmo instante, olho pro Eder ao meu lado e sorrio, um sorriso leve, com um sentimento de naturalidade, entendendo o início de uma relação a ser construída, porém escondendo um medo tremendo de não ser aceito ou acolhido como pai. Uma relação se iniciava, com a incerteza de um futuro, porém com algo maior nos conduzindo a seguir em frente e não desistir. 

Mais de um mês depois daquele momento, as crianças já estavam em casa, a guarda já era nossa, mas a relação de pais e filhos ainda estava a construir. Minha filha ainda resistia aos meus anseios de carinho, de cuidado com seus cabelos, de conselhos para quais roupas a combinar, como também não aceitava meus beijos de boa noite e muito menos obedecia a minha autoridade como pai ou adulto. 

Meses se passaram, inúmeras tentativas frustradas, noites mal dormidas, conversas ao meio de choros com meu esposo, tentando entender como lidar com nossa filha e conquistar sua confiança. Enquanto isso, a cada dia, quando ela não aceitava meu boa noite, levava eu na brincadeira, fazendo cocegas e roubando beijos em sua face, mesmo sabendo que ela os limparia depois, porém, ao final, via em seu sorriso contrariado a plena satisfação com a graça. 

Percebi ser um jogo, o qual não venceria apenas um, mas nós dois se eu jogasse respeitando a relação entre um adulto e uma criança, um pai e uma filha, dois seres humanos que se conheciam recentemente. 

E assim a Transformação ocorria aos poucos, sem muito alarde, quase imperceptível. A relação se consolidava e se transformava. Até que em um dia, como tantos outros, ao dar boa noite, ela me pediu um beijo, sem demora logo atendi. Beijo do amor conquistado, beijo da confiança alcançada, marcando o início de uma relação de cumplicidade e companheirismo. 

Hoje quando penteio seus cabelos, ela me pergunta se gosto de cuidar de seus cabelos, questiona já querendo ouvir minha resposta de sim, com certeza, sempre... Afinal foi sempre o meu maior desejo, desde o primeiro encontro. 

O jogo terminou e meu prêmio, quase diariamente, é receber apertões em minhas bochechas com os dedinhos da minha menina, acompanhados da palavra fofinho, pronunciada com sua voz imitando um bebê. Vencemos. 

Eu e ela vencemos, conquistamos um ao outro, construímos o amor nos permitindo a transformação a cada dia, apesar dos medos monstruosos, das agonias, das tristezas e das tentativas frustradas, porém abertos a aprender e nos conhecer.

Adoção tardia é isso, estar disposto a conhecer seu filho ou filha e ser transformado com essa nova relação, esse novo papel que a vida nos ensina, a paternidade.






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