Abner Tofanelli

Violoncelista, artista de rua, ex-deputado jovem, estudante de Gestão Pública e ativista pela cultura e educação


"Se está tocando na rua, é porque não tem talento!"

Por: Abner Tofanelli
07/09/2019 às 10:33
Abner Tofanelli

Agora, antes de qualquer coisa, a rua é o lugar onde se acostuma a ver e a ouvir de tudo; afinal, o calçadão é a única parte da cidade em que existe a maior concentração diária de gente de todos os cantos do município - do proletário à burguesia, dos moradores de rua aos comerciantes; desempregados, advogados, cristãos, ateus, punks, etc... Talvez eu fosse classificado por ora como um jogral, por ora como trovador. 

Vocês já ouviram falar do menino que toca violoncelo lá no calçadão? Pois é ele quem vos escreve. Neste artigo, abordarei um pouco da minha visão empírica e experiência pessoal sobre a atividade que se tornou, por um acaso, minha profissão e que ainda desperta a curiosidade de muita gente. Ah, e quando falo sobre arte na rua quero dizer que eu sou somente uma das ferramentas artísticas presente no calçadão; pois há além: poesia, estátuas vivas, grafite, capoeira, outras apresentações, instalações, autocolantes, etc.. 
Historicamente, não há registros de uma invenção da arte na rua. Porém, na Idade Média, em meados do século XII, os poemas medievais eram declamados em ruas, praças, festas e palácios, com o objetivo exclusivo de divulgação. E por terem acompanhamento musical, receberam o nome de cantigas ou trovas. O trovador era o artista que tinha como missão realizar as referidas apresentações e deixar a todos, mas principalmente clero e reis, satisfeitos.  Entretanto, além do poeta nobre, havia o poeta plebeu, apelidado de Jogral. 
 
O Jogral provinha de uma classe popular, não pertencia a nobreza. Realizava performances mais simples e humildes para os senhorios das terras e assumia o papel de bufão, uma espécie de trovador para o "povão”.  
Agora, antes de qualquer coisa, a rua é o lugar onde se acostuma a ver e a ouvir de tudo; afinal, o calçadão é a única parte da cidade em que existe a maior concentração diária de gente de todos os cantos do município - do proletário à burguesia, dos moradores de rua aos comerciantes; desempregados, advogados, cristãos, ateus, punks, etc... Talvez eu fosse classificado por ora como um jogral, por ora como trovador. 
Aliás, lembro-me que, certa vez, cheguei à minha esquina, abri o estojo do instrumento, montei o equipamento, sentei, conferi a afinação e comecei a tocar – como de costume. Entre a pausa de uma música e outra, vejo duas senhoras vindo em direção a mim e ouço uma comentar com a outra: "Tadinho, tão novinho e já está aqui assim...” Diante disso, pensei: assim como? Tocando na rua? Naquele momento senti como se tivesse tentado toda uma carreira musical, tivesse falhado e, como consequência, acabei indo parar nas ruas... Pelo contrário, eu costumo dizer que tocar na rua foi o estopim para o início de tudo, inclusive de muitos novos sonhos.  
Para falar a verdade, eu nunca tive muitas pretensões em relação à música, mas as coisas foram acontecendo; ali foi onde eu compreendi a importância da arte na vida, ampliei a minha visão de mundo e, principalmente, saí da minha bolha social! 
Do ponto de vista do artista, foi um choque de realidade quando comecei a enxergar quão diversa é nossa sociedade. E quão corriqueiro e monótono é o roteiro que uma massa parece traçar. É simples: faça um teste e fique uma hora observando uma esquina do calçadão durante alguns dias. Você começará a perceber e a refletir no exército de robôs humanos ocupados e apressados para o trabalho; no consumismo bombardeado por um marketing altamente influenciável; na invisibilidade que impomos aos miseráveis; na procura incessante por emprego de quem quer trabalhar; na criatividade de ambulantes; na monotonia que o mercado faz as pessoas seguirem... O mais interessante é que todas essas pessoas têm uma 
história ÚNICA, sonhos, desejos, talentos, carências, traumas, qualidades, dificuldades... e é muito libertador quando você começa enxergar a sociedade por essa ótica. 
Já do ponto de vista do público, querendo ou não, antes da arte penetrar no sentimento, o primeiro pensamento que as pessoas têm quando veem alguém tocando ou expondo sua arte na rua é, na certa, perguntar-se o porquê da pessoa estar ali. Automaticamente, mas sem generalizar, os seguintes pensamentos ocorrem: será que é porque ele não tem talento? Ou será que já desistiu da carreira e de seus sonhos? Ou porque não tem perspectiva? Até mesmo porque um instrumento tão nobre como o violoncelo não foi feito para ser tocado na rua - vale dizer que, em determinada ocasião, ouvi algo assim de um professor. 
Sendo que eu visto minha melhor roupa e dou o meu melhor, porque gosto de quebrar este paradigma em questão. Inclusive, a central proposição da arte urbana é justamente sair dos lugares ditos ‘consagrados’, isto é, destinados à exposição e apresentações artísticas (teatro, cinemas, bibliotecas, museus), para dar visibilidade à arte cotidiana. Daí o porquê de tocar desde Tchaikovsky a Maicon Jackson, do Rock ao Funk, do MPB ao Sertanejo, principalmente num instrumento que foi perpetuado e elitizado, para execução de música clássica, em orquestras e teatros... A contradição é um dos maiores conceitos da arte na rua e eu gosto disso! 
Este tipo de arte proporcionou-me vivenciar sensações que foram capazes de mudar o dia e até mesmo a vida de pessoas – inclusive a minha. Desde ter tocado com um dos maiores astro do Rock do planeta, Steven Tyler, até ter influenciado dezenas de crianças a começarem estudar música; ao rapaz que desistiu de um suicídio e a senhora que não ouvia a música do parabéns pra si há 20 anos... São tantas e tamanhas que não caberiam neste singelo artigo.  
Todas me fizeram ter a certeza que o meu trabalho vai muito além de passar um chapéu ou tocar algumas músicas; é uma utilidade pública, uma reflexão, uma contradição diária e, digase de passagem, tem papel político. Por que nossas crianças não desenvolvem música e outros talentos nas escolas? Por que uma cidade, do porte de São José do Rio Preto, não tem uma orquestra sinfônica funcional e atuante?  Por que não isentamos impostos dos instrumentos musicais de aprendizado? Por que não temos uma escola municipal de música?  
Numa sociedade em que mais da metade de sua população nunca sequer foi a um teatro, a arte de rua torna-se cada vez mais necessária; porque não se limita à classe de quem a assiste - a arte na rua não precisa de tempo, espaço, movimento cultural... Tampouco de reconhecimento para acontecer, ela só precisa da rua. E assim ela acontece, nos lugares menos esperados, porque o seu principal papel é a inclusão. E é por isso que ela existe e resiste há milhares de anos! E é por isso que a faço! E é por isso que eu digo com o maior orgulho do mundo: artista de rua? Sim, senhor!



Ex-Deputado Federal Jovem no Parlamento Jovem Brasileiro, Abner foi o autor da Lei Municipal Nº 12.832, de 20 de Setembro 2017, que regulamenta todas as atividades dos artistas de rua na cidade de São José do Rio Preto.






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