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Jill Castilho

Arquiteto e escritor


A primeira vez a gente nunca esquece

Por: Jill Castilho
24/08/2019 às 08:39
Jill Castilho

Quem não se lembra de sua primeira vez? O primeiro beijo na boca, a primeira nota máxima na escola, a primeira viagem com os amigos, o primeiro namorado ou namorada, o primeiro amor, a primeira desilusão... 

Enfim, existiram muitas primeiras vezes na vida de todos, algumas são mais marcantes do que outras. Para inaugurar a estreia desta coluna, resolvi escrever sobre a primeira vez que Me Amei. Quando escolhi a aceitação do meu ser, o início da construção do meu Amor próprio.

A homossexualidade é algo maior do que qualquer vontade ou escolha, é algo inerente ao ser, tendo duas opções a seguir, viver dentro ou fora do armário. Há 21 anos, a comunidade LGBTI vivia em guetos, sem visibilidade, marginalizada pelos preconceitos.

Naquela época ser gay era muito mais difícil, não existiam referências positivas na grande mídia, a sociedade mostrava as piores faces do homossexual, ou como chacota, ou drogado, ou prostituído ou dentro do armário, não existindo exemplos como hoje, Pablo Vittar,  Daniela Mercury, Paulo Gustavo, Tony Reis entre outros ícones.
 
Quando eu estava com 15 anos, depois de muita luta interna, muitos choros, muitas humilhações, muitos castigos, muitos pedidos à Deus para ser como meu irmão, aceitei minha atração por outros meninos. Era gay e não havia maneira de mudar minha essência, por isso naquele momento parei de lutar contra meus desejos. 

Um dia, depois de mais um pranto embaixo do chuveiro, cheguei à seguinte conclusão: ”Sou gay, não vou casar com mulher, não terei filhos e nem Amar outra pessoa.” Acreditava assim como a maioria da sociedade, que entre pessoas do mesmo sexo, não existia amor, sendo apenas relações efêmeras através do sexo, como também não podiam constituir famílias.

Naquela ocasião, não sabendo ao certo e ainda imbuído de muitos preconceitos, decidira não compactuar com o futuro determinado pela sociedade, embora achasse que seria infeliz pelo resto da vida, pois não teria o mesmo futuro do meu irmão heterossexual. 

Apesar disso, naquele último choro agonizante, sem a consciência atual, pela primeira vez resolvi me amar e me aceitar como era, sem autonegação ou a autoviolação de ser, tendo a possibilidade de me reconhecer como gay. Estava fazendo a maior escolha da minha vida, determinante para a construção dos meus valores, caráter e da família, a qual conquistei hoje junto ao meu marido. 

Depois daquele episódio, passei ainda três anos dentro do armário, porém vivia mais em paz comigo mesmo, um novo menino estava se transformando em um adulto independente das expectativas dos outros. Quando completei 18 anos, depois da morte prematura do meu irmão, sai do armário. Minha família, à primeira vista, resistiu a me reconhecer, porém logo me acolheu. 

Aprendi desde cedo, que o Amor em minha vida, seria permeado por confrontos com a sociedade, seja para me amar ou amar os que me cercam. Assim aconteceu para me casar como também na adoção dos meus filhos, se tornando as maiores batalhas da minha vida. 

Os enfrentamentos continuam, porque viver em uma sociedade avessa a diversidade, sendo uma família homoafetiva inter-racial com filhos por adoção tardia, é resistir, mas resistir em nome do Amor.






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