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Marcelo Gomes

Graduado em Ciências Sociais e Mestrado em Sociologia pela FCL-UNESP é Doutor em Sociologia pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP.


O déspota embotado

Por: Marcelo Gomes
28/03/2021 às 10:40
Sociologia e Filosofia

O impacto da condenação e morte de Sócrates em Platão foi profundo e hoje

sabemos o quão odiosa se tornou a democracia para este pensador grego. Afinal, que

virtuosa Pólis era aquela que matou o mais sábio dos homens?

Para este filósofo, a

democracia tende a se corromper em demagogia porque está à mercê da manipulação

retórica conduzida pelos governantes. E esta tarefa ainda é auxiliada por sofistas que

liquidam a consistência objetiva da verdade e corroem a realidade a partir de seus

simulacros discursivos. Esta manipulação destrói a base objetiva da vida social e da

confiança. A vida se torna dependente da opinião pública ou da maioria irresponsável e

volúvel. A democracia se corromperia pela sua dependência precípua de sustentação na

veleidade de uma massa cada vez mais licenciosa, ignorante e movida pelas paixões.

Por isso mesmo é que o legado democrático é sempre a crise política esperando o

desfecho e a resolução vinda pelos braços de um tirano ou salvador. É por estes motivos

que a visão política de Platão se tornou execrável nos meios liberais e também nas

esquerdas.

 

Todavia, Platão é um autor complexo tanto quanto sua crítica a esta forma

de governo. E sugerem alguns: não seria uma ironia? E antes que o acusem de ser um

daqueles tipos conservadores e bolsonaristas, lembremos também que do mesmo livro

que transbordam estas palavras, saem outras exortações. A principal delas é que o

remédio para estes males estaria numa sociedade hierarquizada e disciplinada. E se isso

só piora a caracterização política de Platão, seu desfecho é interessante, pois advoga que

esta sociedade deva ser comandada por um rei que seja ao mesmo tempo dirigente e

amante da sabedoria. Era o rei filósofo, que só ganharia tal estatuto após uma vida

inteira de estudos. Com isso em mente, podemos passar para nossas considerações.

 

Não podemos negar que a democracia, sobretudo essa que temos e que não

passa de um arremedo frágil, de fato não é mãe de todas as virtudes. As massas

ignorantes elegem seus representantes e só. E o fazem no calor das circunstâncias e sob

as mais variadas formas de manipulação. As duas principais são: o poder que o dinheiro

confere aos candidatos pesadamente financiados e a construção e administração das

ideias que habitam a mente dos indivíduos. Quem controla o dinheiro e as ideias nas

democracias capitalistas controla o resultado do pleito.

 

A manipulação das ideias criou o antipetismo e este elegeu Bolsonaro, o

mesmo que odeia e ataca diuturnamente a democracia. Esta mesma democracia que

permitiu que ele chegasse ao poder. E eleito foi e ainda o seria porque possui uma boa

máquina de propaganda que opera a manipulação da verdade cuja eficácia está

assentada na boa fé e na ignorância das massas. Ignorância, essa, criada e perpetuada

justamente pelo mau funcionamento democrático da nossa república.

 

Tendo isso em mente, proponho um desafio: usar Platão para interpretar o

Brasil atual. Em quê Platão estaria correto?

 

Quando vemos que fakenews ou — chamemos pelo nome as coisas — as

mentiras mais deslavadas orientam políticas de Estado, como prescrição de tratamento

contra Covid-19; não uso de máscaras ou isolamento; hostilidade contra a política de

vacinação; ataque ao currículo e conteúdos escolares; políticas pedagógicas, etc. Enfim,

quando a manipulação da verdade passa a ser a técnica demagógica do governante,

Platão parece estar certo.

 

Quando vemos que de um lado do povo vozes gritam pelo pai infalível Lula

e de outro pelo pai mitológico Bolsonaro, parece que a debilidade das crises da

democracia e apelo aos líderes demagogos descritos por Platão estavam corretos. Mas

não nos enganemos, há demagogos de centro também. E pior que estes só os frios,

insípidos e calculistas tecnocratas dos mercados ou da administração pública. E por

isso, uma pitada de político por vocação não faz mal a uma democracia sólida, como

bem sabia Max Weber.

 

Não há ilusões! Uma democracia — sobretudo estas de fachada ou movidas

por uma oligarquia de bastidores — fundada em massas ignaras pode produzir tantas

tragédias como a pior das autocracias. Pois em nenhuma delas o poder será limitado

pelo uso da razão e princípio universal e igualitarista do humanismo. Mas nenhum

destes casos é o caso brasileiro. Vivenciamos hoje o pior dos cenários jamais

imaginados por Platão. O pior do autoritarismo com o pior da vulgaridade demagógica.

 

O que é mais pernicioso para a vida na pólis? Um governo autocrático de

um déspota esclarecido ou o governo "democrático” de um déspota embotado? Falso

dilema e quase um sofisma. O que precisamos mesmo é de uma democracia popular

exercida por um povo cultivado e educado. O único problema é que o pressuposto para

que isso ocorra é que antes já tenha ocorrido. Só assim as massas serão cônscias e

cultivadas e saberão o que fazer com o poder a elas outorgado ainda que abstratamente.

Do contrário, continuarão inertes e manipuladas ao sabor dos ventos. E que no limite

celebrarão de forma imunda e ridícula o único exercício de poder que possuem a cada

dois anos: o poder de alienarem-se do poder, seja para uma súcia de oligarcas da política

partidária, para plutocratas do mercado ou, pior, para um ignorante qualquer cuja

campanha fora impulsionada por mentiras e pelo ódio ardilosamente plantado contra

governos de esquerda. Afinal, sempre souberam que o julgamento do povo é mais

rápido do que o julgamento dos tribunais... Numa democracia quem controla o povo,

controla o poder. E o povo é controlado, graças à carência material e intelectual, por

aquilo que Shakespeare descrevia como "o vil metal”.






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