Eder Galavoti

Delegado de polícia e professor da academia de Polícia Civil de São Paulo, lateral direito e corintiano


Vida de delegado

Por: Eder Galavoti
19/03/2020 às 08:32
Eder Galavoti

É tempo de solidariedade. É tempo de acreditar que tudo tem jeito. É tempo de ficar em casa ouvindo e contando histórias. É tempo de dar um tempo na vida. Sendo assim, segue ai mais um episódio de vida de Delegado.

No início dos anos noventa vários distritos foram emancipados no Estado de São Paulo. A política de segurança pública era instalar as Delegacias de Polícia em todos esses vilarejos. 


Nessa onda consegui uma transferência do Vale do Ribeira para um pequeno município na região de Jales. Prefeito novo, vereadores novos, padre novo e Delegado de Polícia novo. Logo que cheguei o prefeito adiantou que a prefeitura construíra uma casa para a autoridade policial, pois ali não havia imóvel adequado para locação. 

O imóvel ficava defronte a casa do alcaide e tinha um projeto de vanguarda. A área de serviço ficava logo na entrada, ou seja, eu podia lavar a roupa e apreciar a movimentação na rua. Comprei móveis e então chamei meu compadre e meu amigo Roberto para ajudar na mudança e conhecer minha nova paróquia. 

Ambos toparam, mas Roberto titubeou no início, pois o primogênito dele estava para nascer. Para a mudança utilizei emprestada do futuro sogro uma perua Kombi de carroceria, que por essas bandas conhecemos por "cabrita”. Nossa chegada foi uma parada de circo. Todo mundo veio olhar o delegado e sua mudança. 

Abertas as caixas dos móveis percebemos que existiam cento e cinquenta mil parafusos e porcas, portanto nunca dispensem o montador quando oferecido pela loja. Céu escurecendo, filho do Beto ameaçando nascer, desistimos da montagem e resolvemos voltar. 

Durante o trajeto despencou uma tempestade e para piorar a gasolina da Kombi acabou. Discussão no cockpit da cabrita e a solução óbvia era solicitar socorro. Após algum tempo – acreditem - ali parou, em meio a chuva torrencial, um motociclista que se prontificou voltar com gasolina. 

Esperamos por certo tempo , mas como a chuva não cessava deduzimos que o motociclista não retornaria, pelo que pedi novamente socorro. Rapidamente outro veículo parou e me deu carona na caçamba pois eu estava todo ensopado. 

Quando sai, meus combatentes gritaram pela chave da Kombi e então atirei o molho na direção deles. Nesta ação as chaves quicaram no asfalto e mergulharam na enxurrada, desaparecendo igual o soldadinho de chumbo. Logo depois retornei com o combustível e foi necessário arrombar a tampa do reservatório para o abastecimento. 

Para desespero do grupo percebemos que o esforço fora em vão pois a tampa arrombada não era do tanque. A cabrita era veículo antes movido a diesel e a mudança alterou o compartimento. 

Não havia mais nada a fazer e tão somente esperar a tempestade passar para solicitar nova ajuda, lembrando que celular era coisa de jornada nas estrelas. Mas eis que surge, em meio a ventos e granizo, o motociclista do início dessa história segurando um galão. Sim, gente solidária sempre existiu. 

Tanque correto cheio, ligação direta, arrombamento da direção e chegamos vivos, mas devolver a kombi para o sogrão foi a missão mais difícil. 

Ahhh, tava me esquecendo de contar que meu amigo Roberto viu Tiago nascer.






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