Eder Galavoti

Delegado de polícia e professor da academia de Polícia Civil de São Paulo, lateral direito e corintiano


Zumbilandia no meu jardim

Por: Eder Galavoti
12/02/2020 às 08:29
Eder Galavoti

Moro numa casa pequena, mas em razão de projeto arquitetônico inteligente tenho o privilégio de ter no fundo um espaço de paisagismo. Ali, quase sempre, com uma xícara de café ou taça de vinho como companhia, fico pensando na vida e observando o bioma. 

Dividiam harmoniosamente nesse espaço as Orelhas de Elefante, flores do paraíso, dama da noite, jabuticabeira anã e bambuzinhos de flor. Com o passar do tempo - a projetista vai me matar – em razão de sementes jogadas sem compromisso, acabaram nascendo imponentes pés de mamão papaia, pimenteira e até tomateiros. Recordo que mesmo floridas ou frutadas as plantas atraiam poucos pássaros. Daí, rendi-me por colocar bebedouros de beija flor e então tudo foi se alterando. Logo apareceram os colibris de tudo quanto é tipo. Depois pequenos suiriris e vários de uma espécie desconhecida na cor preta que tentam a todo custo monopolizar o consumo. Nessas contemplações passei a notar um volume cada vez maior de pássaros num frenesi preocupante. Até durante a noite apareciam para um deguste do néctar falsificado. A gota d’água foi anotar um ser escuro que pensei ser um morcego consumindo o melado. Na verdade, eram mariposas gigantes em completo descontrole, indo e vindo sem parar.  Certamente você já ouviu que o consumo da agua com açúcar prejudica os tais apodiformes, mas não é bem assim. O que faz mal é a possível fermentação da água com açúcar. Isso mesmo, fungos e álcool são o problema. Os passarinhos estão viciados no bebedouro e não querem mais nada com nada.  Sequer aportam nas flores ou beliscam um mamão. Numa bisonha comparação criei uma cracolândia de beija flores, pássaros de todo tipo, formigas, abelhas e até borboletas zumbis. O Prazer está ali sem nenhum esforço. Tudo está liberado.   Faço esse paralelo para mensagem àqueles que defendem à tolerância desses espaços. As cracolândias são locais dentro das cidades onde as pessoas se aglomeram para o consumo desenfreado de entorpecentes sob olhos cegos do Estado e da sociedade.  Lá, movidos pelo vício do prazer momentâneo, o dependente perde o interesse pela família, pelo trabalho, pelo lazer e o pior de tudo, perde o amor próprio. Dessa conversa, concluo que facilidades com entorpecentes aceleram vícios e em pouco tempo não há controle de mais nada.  Quando o Estado fecha os olhos e você desvia da praça de zumbis, pensando que o problema não é seu, é a mesma coisa que não se importar em ter um campo de Auschwitz logo ali.  Além de tratamento médico e psicológico essa gente precisa aprender a ter prazer em atividades normais do dia a dia e as pessoas mais próximas são essenciais nessa recuperação. Todo dependente tem um pai, uma mãe um tio, um amigo que pode e deve tentar ajudar na mudança de foco. Crescimento econômico também ajuda pois com ele temos o surgimento de empregos e oportunidades.  Para o Estado resta também o dever continuar reprimindo a oferta de drogas e nunca tolerar esses espaços.  A missão como em casa é ensinar o beija-flor a beijar a flor novamente. Já a lição é deixar o açúcar de lado e plantar flores por onde passar.   Bora lá.






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