Abner Tofanelli

Violoncelista, artista de rua, ex-deputado jovem, estudante de Gestão Pública e ativista pela cultura e educação


Jovem e política: por que não?

Por: Abner Tofanelli
18/08/2019 às 10:42
Abner Tofanelli

Há tempos os jovens têm papel essencial em diversos cenários e momentos políticos mundiais. É inegável que o vigor da juventude teve e tem poder suficiente para balançar as estruturas de um País e fazer com que seus anseios sejam atendidos. 

Na jovem democracia brasileira, um recente marco que ficou conhecido como "Diretas Já” teve a juventude como principal protagonista na luta pelo direito ao voto. Alguns, contudo, dizem que, como os jovens do século se "desinteressaram” pelo voto e pela política em si, essa luta pode ter sido em vão.  A reflexão que trago aqui é: será que eles realmente não se importam com a política ou será que estão recriando o modo de fazê-la?

No ano passado nós tivemos a menor participação de adolescentes em uma eleição presidencial desde 2002. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), autor do levantamento, um em cada cinco adolescentes de 16 e 17 anos tiraram o título de eleitor. Por outro lado, em outra pesquisa, feita pelo Instituto Datafolha em agosto de 2018, mostra que os jovens são o grupo com maior interesse em participar da política. Mas como é possível participar da política se na hora do voto a juventude não demonstram o mesmo entusiasmo?

Em primeiro lugar, a gente precisa levar em consideração que há um enorme descontentamento com relação à participação pelo voto e às estruturas formais de poder em muitas democracias pelo mundo, os jovens não se sentem representados por partidos e os políticos não falam a linguagem da juventude, isso não significa falta de engajamento, mas sim de entrosamento e representatividade. Cheguei a ouvir uma vez que os políticos são analógicos e os jovens digitais.

No Brasil, em especial, o momento de crise em diversas esferas da sociedade aponta para um colapso do modelo tradicional de participação política, onde até o atual presidente da República faz pronunciamento em tom de "queremos uma juventude que não se interessa por política e ideologias” traduzindo: política não é para vocês... deixe para nós que somos profissionais... A classe política mais afasta do que aproxima e essa tentativa de criminalizar a política para essa geração é um absurdo, somos os governantes de amanhã e quiçá todos tivessem, desde já, o pensamento crítico, ideológico e político bem definido, porém, isso é um processo demorado que deve ser construído dia após dia, e você jovem, não precisa ter uma resposta para todas as questões políticas, você não precisa abraçar uma ideologia ou um político para defender com unhas e dentes, mesmo que a sociedade, a mídia e os políticos façam uma pressão e um bombardeio gigantesco até parecer que a política é baseada entre bem e mal, direita e esquerda, comunistas e fascistas e que se você quiser ter voz e vez, deverá escolher um dos lados e ir para a ‘guerra’; e eu te digo com toda a convicção: a política é muito mais do que isso, você precisa construir suas opiniões sobre determinados assuntos baseado nos seus valores e no que VOCÊ e simplesmente você acredita e tem como prioridade. Não há problema nenhum em dizer: não tenho opinião formada sobre tal assunto ou esse assunto não é prioridade na construção do meu entendimento político. Um dos maiores problemas da geração da informação é a ‘necessidade’ de falar mais do que ouvir, dá a impressão que temos que saber tudo e que a política só é para os lordes engravatados e encastelados de Brasília.

Apesar de aparentemente apática e desinteressada quanto à política e aos partidos, a juventude dessa geração utiliza cada vez mais das ferramentas que tem à disposição para mostrar a força de sua voz. Seja nas redes sociais, projetos ou causas que acreditam. Mas ainda há muito a ser feito para que esse engajamento e essa energia sejam aproveitados em prol da nação. Um alerta: também precisamos ter cautela e analisar como a juventude e seus anseios caminham, pois o processo de construção política, o vigor e a eloquência da juventude é extremamente imprevisível e pode ser muito influenciado, temos na história exemplos de movimentos sociais juvenis que contribuíram para a implantação e a sustentação do nazismo, na Alemanha, e do fascismo, na Itália, Espanha e Portugal.

É preciso fomentar o debate e tirá-lo apenas das redes sociais e universidades: política é assunto de família e deve ser tratado de maneira saudável e honesta, respeitando as diferenças e o tempo de cada um. Os partidos precisam de uma restruturação para acompanhar os jovens, se os quiserem... os ‘caciques’ devem abrir espaço para novos quadros. Os políticos devem acompanhar os anseios da juventude e parar de fomentar a polarização, ela traz estragos catastróficos para toda uma geração. Os pais devem instruir os filhos, claro, mas devem deixar o pensamento crítico e suas opiniões fluírem livremente, lembrem-se os tempos são outros.  A sociedade e a mídia em geral deveriam parar de bombardear apenas dois lados da moeda, como se tivéssemos que escolher um, somos todos humanos e vivemos no mesmo planeta. Mas ainda acho que é pedir muito uma juventude totalmente consciente e politizada em tempos que a molecada está saindo do ensino médio sem saber os princípios básicos da Democracia, o que é a Constituição, sem saber o papel ou a diferença do Executivo para o Legislativo e Judiciário, a competência do prefeito ou de um deputado, a importância dos direitos humanos, da sustentabilidade e da empatia, mas principalmente, em tempos em que a juventude tá saindo da escola sem perspectiva, mas aí é um assunto para outro artigo... Afinal, qual a legitimidade que tenho para dizer tudo isso sobre política, né? Sou apenas um jovem... 






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