Wilson Guilherme

Jornalista e escritor


Sobre pets, tango e sobrenomes

Por: Wilson Guilherme
27/11/2019 às 13:11
Wilson Guilherme

A mim, nunca provocou grandes transtornos, mas para muita gente que cruzei nesta longa caminhada, o meu nome ou a "falta de sobrenome” sempre incomodou. De fato, não é comum o nome de batismo, de registro, não vir acompanhado do nome de família. Meus pais me registraram assim, com dois nomes. Fiz o mesmo com o meu filho. Até aí, questão bem resolvida.

Já escrevi neste espaço sobre o tempo que procurei rio-pretenses e sobre o tempo em que sem procurar encontrei rio-pretenses nos lugares mais inusitados deste país. Me lembrei de uma situação intermediária, aquela em que viajei com um grupo de rio-pretenses para Buenos Aires, para acompanhar um show do Tangolero, grupo formado por profissionais liberais, para demonstrar devoção à universalidade da música argentina.

O ano abençoado de 1994 estava chegando ao fim com o Tetra da Seleção; eu procurando recolocação do mercado de trabalho, fazendo freelancer, "vendi” a pauta ao Geraldo Hasse, jornalista gaúcho da maior competência, que era o editor do Diário da Região: "é um desafio, uma grande ousadia, rio-pretenses cantando e dançando no templo do Tango; mais uma vez os argentinos vão se curvar diante de nós, rs”. 

Hasse, redundante dizer, um gaúcho regionalista, deu ok e partimos para Buenos Aires, capital de um império que nunca existiu, segundo André Malraux.

Antes é preciso voltar um pouco no tempo àquela antessala lotada de uma clínica veterinária na Boa Vista. Murilo Guilherme, criança, apreensivo para que o Lobinho, nosso vira-latas legítimo fosse atendido, afrouxou a corrente mais do que o devido e o nosso pet começou a cheirar e se engraçar com outros cães. Quando chegou na cadelinha penteadinha, cheirosinha, a dona de imediato a recolheu do chão dizendo:

- Ela já tem namorado.

Voltamos àquela noite no  La Ventana, onde o Tangolero, criado no Automóvel Clube, 11 anos antes pelo bioquímico Walter Benfatti, ia se apresentar. Casa lotada de turistas de várias partes do mundo; a noite avançando, ansiedade aumentando, até a direção da Casa abrir espaço entre os espetáculos principais para que os rio-pretenses mostrassem a que vieram. Fizeram bonito, foram aplaudidos. Porém, como sempre tem um porém, um grupo de Curitiba ficou indignado de ter pagado em dólar pra ver "caipira cantar Tango”. Tiveram que nos engolir!

Duro de engolir foi situação vivida com uma conterrânea, presença constante ao meu lado e do amigo jornalista, José Luis Rey, nos passeios turísticos e idas a bares e restaurantes.

Ela não se conformava com o meu nome, insistia em saber a minha origem, aonde eu morava, queria estabelecer vínculos de identidade, pra quem sabe se sentir falando com alguém igual a ela que era da família tal, parente não sei de quem, pioneira no setor não sei de que. 

Eu cada vez mais acuado, lembrando do xará, o saudoso Wilson Romano Calil, que tinha um sobrenome sonoro, fui salvo pela lembrança daquela manhã na Clínica Veterinária: 

- Minha senhora, eu não tenho pedigree!

O tempo não para e se encarrega de abreviar ainda mais o meu nome: passei a ser chamado de WG, e hoje, para muitos sou tão somente o W.






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