Alexandre Gama

Vencedor do Prêmio Esso 2003, categoria Interior. Trabalhou no Correio Popular, Diário da Região e CBN Grandes Lagos. Atualmente é jornalista concursado da Câmara de Rio Preto


Ovo da Serpente

Por: Alexandre Gama
13/08/2019 às 11:15
Alexandre Gama

Cena 1: No domingo, 4 de agosto, durante o clássico Corinthians e Palmeiras no Itaquerão, um torcedor gritava palavras de ordem contra o presidente Jair Bolsonaro, num livre exercício de liberdade de expressão previsto na Constituição de 1988.

Mas foi preso por policiais militares, algemado e levado para uma delegacia onde passou 5 horas isolado numa sala. Motivo: foi detido para "preservar a integridade física do torcedor, que proferia palavras contra o presidente da República, o que causou animosidade com outros torcedores, com potencial de gerar tumulto e violência generalizada", informou a Secretaria de Segurança Pública em nota.

Cena 2: No sábado, 3 de agosto, mulheres militantes do Psol se preparavam para plenária do partido na região central de São Paulo, exercendo o direito constitucional de "livre organização e manifestação”, quando policiais militares chegaram ao evento para "monitorar os presentes” e "pedir documentos”. O que, nas palavras de militantes, foi uma tentativa de "intimidação”. A SSP informa que o objetivo da presença policial era "garantir a segurança do evento” e saber se a manifestação "ganharia as vias públicas”.

Isolados, já seriam episódios graves que atentam contra o Estado Democrático e de Direito. Mas não são. Incentivados por um discurso abjeto e anacrônico contra minorias, artes, cultura, liberdades individuais, universidades, ciência, imprensa e etc, alguns integrantes de forças policiais, ministros de Estado e grupos sociais e empresariais alinhados à "nova era” da política vêm promovendo uma verdadeira caça às bruxas contra aqueles que, de alguma maneira, se opõem ao pensamento iluminado de Jair Bolsonaro.

Foi assim nos dois episódios acima citados. Foi assim também na reunião sindical invadida por policiais rodoviários federais em Manaus; na tentativa de desidratar a Ancine e suas produções "subversivas”; nos ataques rasteiros a governadores da "Paraíba”; no desmonte de leis que garantem o combate à escravidão e ao trabalho infantil; no avanço do desmatamento da Amazônia e na censura à divulgação de estudos científicos como os há anos desenvolvidos por Inpe, Fiocruz, IBGE e outros órgãos de Estado.

Sem contar a negativa do presidente em reconhecer que o Estado brasileiro é, sim, responsável pela morte e desaparecimento de opositores políticos ao regime militar (1964-1985) – como no triste episódio envolvendo o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, alvo da verborragia bolsonara: "Se ele quiser saber como o pai dele desapareceu, eu conto.” Por óbvio não contou e ainda mandou a Petrobras romper o contrato que mantinha com o escritório de advocacia de Santa Cruz. Mais vingativo, impossível.

Mas de tudo o que se viu e ouviu nesses sete meses de gestão Bolsonaro, nada – ou pouco - se compara ao ataque vil, sistemático e grotesco que o presidente da República vêm promovendo contra jornalistas e contra a imprensa livre. Nomes como Miriam Leitão, Rachel Sheherazade, Joel Pinheiro da Fonseca, Marco Antonio Villa, Glenn Greenwald, Carlos Andreazza entre tantos outros profissionais de imprensa que atuam não só em veículos tradicionais como também na chamada blogosfera têm sido alvo de ameaças e, em alguns casos, ameaças que resultaram em demissões.

Nem dá para falar que os profissionais hoje alvo da fúria bolsonarista sejam "comunistas” ou "socialistas”, para ficar nas palavras fetiche de Bolsonaro para rotular seus adversários. Muitos dos jornalistas hoje declarados "inimigos” do bolsonarismo – caso de Miriam, Sheherazade, Villa e Andreazza – o ajudaram a se eleger e inclusive ganharam a mesma alcunha de personas non grata nos 14 anos de administração lulopetista.

A última tacada de Bolsonaro contra a imprensa (até a finalização deste texto) veio no último dia 6 de agosto, com a edição de Medida Provisória que desobriga empresas de capital aberto a publicar em jornais impressos o balanço financeiro anual, numa clara declaração de guerra do presidente que não fez questão de escamotear. Disse Bolsonaro que a MP é uma "retribuição” pelo tratamento que recebeu de jornais ao longo da campanha de 2018: "(Na campanha) quase toda a mídia o tempo todo esculachando a gente. (Chamavam de) Racista, fascista e seja lá o que for. No dia de ontem eu retribuí parte daquilo que grande parte da mídia me atacou”. Era possível ser mais vingativo.

Para encerrar, em sete meses de governo, Bolsonaro conseguiu o que parece ser seu objetivo desde quando enfiou na cabeça que seria presidente da República: dividir a sociedade, minar "inimigos” ideológicos, desidratar o pensamento científico e desmontar o sistema educacional e cultural do País. De quebra, garantir aos seus um lugar ao sol. Nem que seja o sol que se põe no extremo norte do continente americano. A serpente já põe a cabeça para fora da casca do ovo.






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