Wilson Guilherme

Jornalista e escritor


Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro

Por: Wilson Guilherme
12/10/2019 às 11:28
Wilson Guilherme

"Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro, uma tarde clara e fresca, sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida (...)" - Machado de Assis - Dom Casmurro

Ser moleque na periferia de Rio Preto dos anos 60 era viver solto em um universo geográfico pra nós marcado por poucas mas seguras referências. Só assim sabíamos se estávamos muito longe de casa e se havia tempo suficiente pro retorno a nossa casa antes do pai voltar do trabalho. 

A cidade tinha poucos bairros, sendo a Boa Vista, o mais antigo, o que nos fornecia marcos divisórios mais confiáveis, como a Igreja Basílica e a Santa Casa. Fora do meu território, "faróis” como Igreja Catedral, estádio do América F.C., e Palácio das Águas, surgiam em nossas mentes como algo inalcançável.  

Vivíamos em litígios nem sempre imaginários entre gangues de moleques do mesmo ou de bairros adversários, pra delimitar território. Pra exagerar, era um mundo onde os fracos não tinham vez. 

Esse imperativo territorial iria me acompanhar pelo resto da vida. Ainda sem GPS e Waze, quando fui estudar em São Paulo, a primeira morada foi no Centro, uma tentativa de reproduzir os pontos conhecidos de Rio Preto e a sensação de que não me perderia na cidade grande. 

As bravatas da infância tornaram-se recorrentes nas conversas dos adultos sobreviventes daquela época. Os embates mais divertidos travei com Daniel Firmino, hoje pintor Naif renomado, nas mesas do Super Pão, bar icônico que imperou na Coronel Spínola com Silva Jardim, até os anos 90. 

Firmino, criativo e divertido cresceu no Morro Pelado, acima da Murchid Homsi, e em nossas tertúlias etílicas procurava diminuir a grandeza da Vila Esplanada da minha infância, fato inaceitável pra mim, já que a minha aldeia, sim, é universal.  

Daí, escrevi algumas linhas pra baixar a crista do Firmino: 

"Certa feita, em priscas eras, tempo de antanho, somei-me a outros três petizes da rua em que morávamos na fronteira da Vila Esplanada e Vila Raposa, formando uma quadrilha armada de estilingues e canivetes, munida de embornal com pelotas de saibro, caixa de fósforo e alguns cigarros Continental (sem filtro) furtados do pai do Tonhão. Seguimos descalços pela estrada de ferro, ora tropeçando nos dormentes, ora nos equilibrando nos trilhos... mas o tempo todo atirando pedras a torto e a direito; nos apropriando revolucionariamente de frutas de quintais alheios, tirando a paz dos passarinhos. Fomos assim à esmo, sem relógio, sem lenço, sem camisa e sem documento até o aviso estridente da locomotiva, que nos forçou a abandonar a estrada e a tomar o rumo de um território longínquo da urbe (pra nós) e desconhecido, pros lados do São Judas. Sem goiaba, sem cigarro, sem munição e atolada num lamaçal, a quadrilha empacou na dúvida entre seguir e recuar. Mirinho, quem sabe fazendo troça, intimidou a todos alardeando que estávamos perto de um povoado, cujos nativos andavam nus e eram ferozes como índios... ...estávamos chegando ao Morro Pelado" .






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